domingo, maio 19

Quando eu for grande vou ser...

O Júnior acabou de comunicar que, se quando for grande não conseguir ter o seu próprio Club Penguin , não se vai atrapalhar. Se não conseguir trabalhar por conta própria criando o seu próprio site para crianças, aquele que será o melhor do mundo, irá trabalhar para o Club Penguin que já existe.

Mas já tem um plano C,se o B não funcionar, já decidiu que vai cientista o que também não é mau, afirma satisfeito.

Se não conseguir ser cientista é que a coisa se complica, no entanto, afirma com um ar desenrascado o pior que lhe poderia acontecer é ter que ser político. É mesmo o pior que se pode ser, grita para a mãe com convicção.

- Bolas! Estou tramado se não conseguir ser cientista porque não estou a ver assim mais nenhuma profissão...Já sei, grita cheio de entusiasmo, vou ser polícia! Mamã, mamã, achas que quando for adulto ainda há manifestações? É que eu quero ser polícia para andar atrás dos manifestantes com o meu escudo e o meu bastão a bater nas pessoas. Há profissões que são o máximo!, ri satisfeito.

E sai da sala, a correr, para escrever isso no seu diário para não se esquecer...e eu escrevo aqui não sei bem para quê...

quinta-feira, março 7

Portaria de extensão infantil

Até há bem pouco tempo o Júnior era um fervoroso cliente das lojas chinesas. Achava que era tudo muito mais barato do que nas lojas "normais" que vendiam os produtos originais e era lá que gastava a sua mesada. Até ao dia em que comprou um baralho de cartas de um jogo qualquer que acabou por se revelar inútil porque as cartas não eram uma cópia fidedigna das que ele já tinha e como tal não dava para jogar.

A Ana aproveitou para lhe explicar, mais uma vez que os chineses, copiam tudo e que muitas vezes não copiam como deve de ser e as coisas acabam por não ter qualidade e não prestam para nada. Há que estar atento às imitações.

O miúdo acabou por lhe dar razão, mais tarde...

Assim quando um destes dias a avó propõe irem almoçar ao restaurante chinês lá perto o Júnior interrompe a celebração antecipada da Boneca, que gosta muito de lá ir, para perguntar em tom cauteloso:

- Mamã, a comida chinesa também é uma cópia da nossa só que mais barata? É que se for eu acho que não deveríamos lá ir...

quarta-feira, janeiro 30

Vigaristas!

Ontem havia correspondência endereçada à Boneca e ao Júnior. Era aquela carta que os CTT enviam, pateticamente, às crianças fazendo-se passar pelo Pai Natal.

O Júnior ficou muito entusiasmado por receber uma carta. É daquele tipo de miúdo de um modelo pré profusão de gadjets interactivos: gosta de ler livros e quando vê a capa de um jornal percebe o que é e não desata a carregar nos títulos das notícias à espera que abra uma nova janela.

Assim que começou a ler passou do entusiasmo à perplexidade. Ficou muito encarnado e repetia confuso: é do Pai Natal? É do Pai Natal?...

Enquanto isso a Boneca guinchava de prazer porque o Pai Natal lhe tinha escrito uma carta cheia de desenhos para pintar.

O Júnior na sala lia a carta pela segunda vez quando teve um acesso de raiva e começou a gritar: VIGARISTAS! VIGARISTAS! ESTES TIPOS DOS CTT SÃO UNS VIGARISTAS. A FAZEREM-SE PASSAR PELO PAI NATAL!!!

Nisto agarra na carta e quase a esfrega no nariz da mãe. Estás a ver? Não é nada do Pai Natal! Basta ler esta frase para perceber, "Acabei de ler a tua carta", acabou de ler a minha carta?! Então como é que eu recebi de prenda de Natal aquilo que pedi se acabou agora mesmo de ler????

SUBESTIMAM A INTELIGÊNCIA DOS MIÚDOS - grita furioso atirando tudo para o lixo.

E não é que o Júnior tem razão?!...


terça-feira, janeiro 8

A ordem das coisas

Mamã, pergunta de repente a Boneca sentada no sofá a ver televisão, o que é que acontece primeiro? O bebé ou o casamento?

sexta-feira, novembro 2

Os novos traumas do Júnior

Um destes dias a meio de um telejornal qualquer o Júnior começou a chorar muito assustado com a crise. Os malditos comentadores, que agora são mais que as mães, e os seus cenários negros, assustaram o miúdo que soluçava a plenos pulmões que não queria que Portugal saísse do Euro.

É claro que o Pernas levou isto muito a sério e passou a considerar o Telejornal, seja ele de que canal for, impróprio para a idade dele e o Júnior ficou proibido de ver as notícias que estão agora equiparadas pelo pai ao Naruto que o miúdo não pode ver por lhe darem pesadelos e provocarem ansiedade. E enquanto o Júnior soluçava ao colo da mãe ela lá lhe ia prometendo que Portugal não ia sair nada do Euro embalando-o como se ele ainda fosse um bebé.

Eu e ela estávamos obviamente perdidos de riso para vos ser franco, convenhamos que era uma cena cómica vista aqui do aquário ou de outro ponto qualquer: um miúdo de oito anos a chorar baba e ranho por causa da crise financeira...

Mas a situação ficou ainda mais descontrolada com o jeitinho que a Ana tem para consolar as almas dos outros com a dura realidade e o Júnior ficou ainda mais fora de si quando a mãe lhe disse que não se preocupasse porque ela tinha um plano para o caso de Portugal sair do Euro que iria impedir que a família ficasse na miséria, que iria impedir que a casa da família fosse pilhada, que não haveria por cá fome e não ficaríamos sem nada como a grande maioria da população naquela fase revolucionária da transição do euro para o escudo.

E lá lhe explicou que como toda a família ficaria sem rendimentos por alguns meses porque todos trabalham para o Estado, estado esse que está e estará ainda mais insolvente e não haveria dinheiro para lhe pagarem os salários, ela já tinha juntado alguns dólares que estariam escondidos para as despesas correntes. Também acumulava comida não perecível. Explicou-lhe que o arroz e o açúcar duram dez anos bem armazenados, as massas cinco, as conservas também e que agora andava a juntar sal para conservar a carne que o papá teria que caçar, durante os primeiros meses, se a situação do país se agravasse. Tinha tudo planeado. Quanto mais ela explicava mais o miúdo chorava e até o Pernas que ouvia tudo com aquela perplexidade dos maridos que são sempre o últimos a saber não escondeu o espanto quando soube que teria que caçar!  Ainda perguntou mas vou caçar aonde? E o quê? Vais-me dizer que vou andar aos coelhos e aos pássaros não? Dispenso-me de relatar aqui o plano dela para caçar coelhos, javalis e veados na Tapada de Mafra e o plano de ocupação militar desse espaço de recreio porque só isso daria mais um artigo de ir ás lágrimas...

Mas, quem lagrimava cada vez mais era o Júnior : chorava e soluçava porque tudo lhe parecia cada vez mais real....

A mãe tentava acalma-lo dizendo que se tudo ficasse mesmo impossível em Portugal iriam viver para os  EUA: estava tudo combinado com a tia Lhena e tudo se resolveria.

E lá foi a criança a soluçar para a cama só conseguindo adormecer de mão dada com a mãe que lhe sussurrava Portugal não vai sair do euro, Portugal não vai sair do euro, Portugal não vai sair do euro....

domingo, agosto 26

A importância do guarda roupa

A Boneca insistiu que a Mamã tinha mesmo que ver com ela este filme e foi este o programa cinéfilo, esta tarde, no Aquário. Inicialmente pensei em esquivar-me e enfiar a cabeça debaixo da barbatana mas logo me deixei encantar pelo excelente argumento dentro do género Monty Phyton.

A miúda estava muito entusiasmada com a película que já tinha visto ontem e minutos após o início começa a relatar o que se vai passar na intrincada história e seus mui variados personagens.

A Ana tentava sem grande êxito disfarçar o tédio. Afinal estamos a falar da fulana que durante toda a sua infância se recusou a ter uma Barbie e a quem todos reconhecem apenas uma atitude feminina nesse período - maltratar a sua irmã - todos sabemos que a as gajas são umas cabras umas para as outras.

Adiante. Estava, como já disse, a Mamã a pensar como se poderia safar do visionamento desta grande obra filmatográfica "Barbie e as Três Mosqueteiras" quando a pequena começa em prolepse total.

- Fofinha, diz a mãe já conformada com o programa da tarde, não me contes tudo porque assim já não vai ser surpresa.

- Eu só te contei a história, reclama a miúda muito espantada, como é que não vai ser surpresa se não de disse como eram os vestidos?!

Coisas de gajas....

segunda-feira, julho 2

Grande macacada

A Ana decidiu finalmente abandonar o seu "voluntariado", seguir o conselho do Júnior e arranjar um trabalho em que em vez de ajudar os outros se ajudasse a si própria.
E não é que parece que funcionou?
Regressada do primeiro dia de trabalho disse ao jantar que tinha ido a uma reunião ao Jardim Zoológico e que até tinha dado para ver a Aldeia dos Macacos mas, não conseguiu dizer mais nada porque a Boneca interrompeu logo com aquela vozinha de menina caprichosa:
- Que sorte! No primeiro dia foste logo a uma visita de estudo!

PS: Este novo emprego da Ana promete...agora sim está entregue à bicharada!

quarta-feira, abril 25

Revolution baby...

Desde sempre que o 25 de Abril é assinalado aqui no aquário/gaiola/colónia porque representa a primeira grande tormenta académica da Ana: a redacção que tinha que fazer sobre o dito dia no dia seguinte nas aulas. Foi durante anos o verdadeiro calcanhar de Aquiles dela porque de resto conseguia fazer o seu percurso escolar utilizando uma quarta parte do cérebro, tudo lhe parecia tão fácil, reservando os outros três quartos para aquilo que lhe verdadeiramente interessava:
  • será que existem extra terrestres? como posso contactar com um? mais importante ainda, será que sou filha dum extra terrestre?
  • será que é mesmo impossível aprender a falar a língua de cão? quando for ao monte vou tentar novamente falar com o Nero;
  • porque não consigo sozinha aprender francês?
  • será que hoje é quinta-feira? à quinta é empadão, será que hoje é empadão de arroz para o almoço?, se é vou ter que ir muito devagar para casa, detesto empadão e se for muito devagar será que hoje vou ter que andar à pancada com mais miúdos do que é normal porque já almoçaram e já estão na rua a brincar? em qual é que bato primeiro?
  • será que o José Adriano vai continuar a olhar para mim com aquele ar de parvo? porque não lhe consigo bater como bato nos outros?
  • o que quer dizer menopausa? pergunto ao meu pai? e se ele me responde em meia hora deixando-me mais uma dúzia de palavras que não percebi para ver no dicionário?
  • o mundo vai mesmo acabar?
  • será que se passar na mercearia do Sr. Figueira ele me deixa levar um chocolate e pôr na conta? ou será que a minha mãe lhe disse que é só um por semana? será que a minha mãe vai notar no fim do mês? será que se vai zangar?
  • é verdade que descendemos dos macacos? se é verdade porque tratamos tão mal os animais? o que terá acontecido ao Black que nunca mais voltou?
  • será que as flores gritam quando as apanhamos?...,
todos os dias montes de coisa para saber e sem net para consultar, era exasperante.

Enfim essa produção de texto como se diz agora tinha por título "O que é para ti o 25 de Abril" e face às dificuldades da aluna a professora sugeriu que ela escrevesse aquilo que o pai dela dizia sobre o 25 de Abril. Foi o pânico total, ela bem que tentou, mas apesar da sua diminuta integração social até ela sabia que crescer na Cidade Satélite vulgo Moscovo exigia um mínimo de integração ideológica, ela que já era suspeita por ser da Madeira, terra de fascistas.

Era lá possível que ela escrevesse a análise intelectualizada e racional do pai dela balizada pela ciência política, relações internacionais, história e economia? E se ela já tinha um problema, não fazia a mínima o que dizer, ficou com dois não podia dizer o que em casa dela se dizia sobre a revolução. A solução estava na colega de carteira uma miúda com o QI por desenvolver mas que tinha o pai certo no 25 de Abril: um mecânico da oficina da rua de baixo sem escolaridade mas com bom ouvido para os slogans da época. Assim lá lhe soprou que agora éramos livres e todos iguais, que o fascistas tinham fugido e que se podia dizer o que se quisesse e foi assim que durante anos a Ana foi reproduzindo as opiniões do pai da Adélia sobre a revolução mas continuava a ser um sofrimento devido, como ela diria actualmente, à desonestidade intelectual.

Poder-se-ia pensar que face a isso ela poderia pensar poupar os filhos dela a esta dificuldade porque amanhã é dia de escola e é provavelmente dia de "produção de texto" sobre o 25 de Abril. E foi o que ela fez, desceu as escadas e disse ao Júnior " se amanhã tiveres que escrever sobre o 25 de Abril não te esqueças de falar sobre a democracia e a liberdade que foram conquistas de Abril". O míudo desvia o olhar da TV e diz "nã, prefiro escrever aquilo sobre a destruição da industria e da economia, o fim do império e o atraso do país em mais de 50 anos..."

Filho de peixe sabe nadar...
:)

segunda-feira, abril 16

Brazilian Wax

A Ana foi almoçar com um amigo. Todos os amigos da Ana são gajos que a tratam como se ela fosse um homem. Quando se encontram são aqueles abraços fraternos e tiradas com voz grossa do género estás com bom aspecto pá! Não há cá vozes melosas nem conversas com segundas intenções. Estes almoços são convívios de companheiros em que o modo de gaja está proibido. E ela gosta porque tem aquela ilusão de que tem um apêndice por um par de horas...

Desta vez o almoço foi numa taberna cool chic porque o amigo dela é um retrosexual cosmopolita que gosta de almoçar em sítios trendy com gays a partilhar amorosamente sobremesas, empregados com chiliques e outra fauna alternativa. Sente-se bem porque se imagina um macho conservador ultratolerante.

E este almoço começa como de costume sem nada de cerimónias com o tipo praticamente a arrancar a ementa das mãos trémulas do empregado, não fosse a Ana agarrar-lhe primeiro, sem sequer perguntar à amiga o que quer escolher. A coisa passa-se mais ou menos como se ele estivesse a almoçar sozinho: é o à vontade de macho! O tipo escolhe o quer comer num segundo sem aquela coisa de gaja ai sei lá eu o que vou comer hoje. Com isto o empregado sai disparado para entregar o pedido na cozinha e só depois volta e é nessa altura que ela lá consegue fazer o pedido.

Ainda a Ana está a falar com o empregado e já ele devora as entradas. Em simultâneo conversam, falam dos empregos, dos sacanas dos colegas, dos filhos deles, da mulher dele que lhe amarga a vida e também da namorada que é um doce. Sim porque o tipo gosta de comer fora do prato! É de homem! Conversam sem pieguices e direitos ao assunto. Quando chega a refeição o amigão ataca o prato com aquele apetite másculo que a Ana tem dificuldade em acompanhar ficando a debicar as azeitonas pretas de que tanto gosta.

Aproveita, no entanto, o modo de gajo para lhe dizer ê pá não percebo porque namoras com aquela gaja! É tão parecida com a tua mulher! Até o nome é parecido. A tua mulher é Ana Maria e a tua namorada é Mariana. É que não lhes vejo mesmo diferença nenhuma.

Uma gaja ficaria ofendida com um comentário desta natureza, um gajo não! Ele enfia na boca mais uma garfada brutal de Bacalhau à Brás, sem se perturbar, e diz com um ar sério que elas são muito diferentes,
a Mariana por exemplo está toda depilada.

A Ana pede-lhe para repetir, com a azeitona presa na boca, e ele repete entre mais uma garfada, com uma naturalidade desarmante, que a Mariana depila-se toda.

A Ana arregala os olhos e tenta não engolir o caroço da azeitona, com os olhos cheios de lágrimas começa a rir dizendo demasiado alto estás a dizer-me que a diferença entre a tua mulher e a tua namorada é que a tua namorada faz depilação integral?????!!!!! É essa a diferença pergunta entre soluços de risos.

Então, responde o outro impassível metendo a último pedaço de comida na boca, podia dar-te 380 diferenças mas foi essa que me ocorreu primeiro. Com isto faz sinal ao empregado e pede um café cheio...

E isto meninas é para que vejam, que o Jonão não vive para sempre, como nós machos somos criaturas simples tão fáceis de conquistar!

sábado, abril 7

O Júnior brinca com bonecas...

O Júnior resolveu que também queria brincar com as Pin y Pon da Boneca e ela disse quem sim.


É normalmente uma brincadeira pacata com um monte bonecas pequeninas que comem pizza e vão à praia enquanto mudam de roupa n vezes por minuto, tão rápido que um gajo nem vê nada.... Tudo muito ordeiro, as idas à praia, os picnics, os mergulhos na piscina, os passeios de caravana ou de carro, etc, enfim...coisas de gaja.
O Júnior chegou e ficou com a autocaravana e três bonecas de cabelo roxo até aí aborrecidamente bem comportadas...roubou logo o atrelado do agricultor porque as bonecas dele precisavam de espaço para carregar mais coisas.




A Boneca escolheu o carro e foi com as duas loiras para a praia fazer um picnic.


Chegadas à praia as Pin Y Pon da Boneca começaram naquela conversa habitual, ai tens uma mala tão gira, ai vou pôr uma flor nova no cabelo, ai que cinto tão engraçado.
As do Júnior também resolveram mudar de roupa só que passados cinco segundos já andavam à pancada porque as três queriam a mesma flor para o cabelo. Comeram a pizza toda e não deixaram nada para as loiras, assim que engoliram tudo desataram a correr para a caravana onde ainda havia comida. Lá dentro começou novamente a pancadaria porque todas queriam comer o pudim. Entretanto uma delas saltou para o banco do condutor e como as outras duas também queriam conduzir a caravana começou a abanar com a luta pela posse do volante. De repente a carrinha saiu desgovernadamente pelo corredor fora com as bonecas sempre a lutar lá dentro, e a Boneca a gritar atrás calma meninas calma... Acabou por chocar com a parede! Instantes depois as Pin y Pon saltavam lá para fora e lutavam pelo chão perdendo os acessórios do cabelo, cintos e malas...

E foi assim que eu do meu aquário me deliciei com a visão de três babes semi-despidas a lutarem na lama....(ok a parte da lama é imaginação minha que o Júnior ainda é pequeno para esses fetiches...).

E ainda dizem que os gajos não sabem brincar com bonecas...

quinta-feira, março 15

Pergunta pouco fashion

Ê pá!
Eu até posso ser um peixe quadrado e misógino mas uma gaja sair de casa todos os dias com uns modelitos tais que os filhos lhe perguntam " Mamã, hoje vais vestida de quê?" não seria de fazer tocar campainhas de alarme naquele cérebro de tipa fashion?

sexta-feira, janeiro 20

Programa adulto

Chega a casa, atira com os sacos do Pingo Doce para o chão da cozinha e exclama com ar cansado:
- Preciso de descontrair, de relaxar. O que eu precisava agora era de um programa adulto, sem crianças!
- Programa adúltero?, pergunto eu.
- Bom, diz ela, um programa desses se calhar ainda me fazia mais falta...
E ficámos a olhar um para o outro em peregrina epifania.

domingo, janeiro 1

Gone with the wind




Ontem a Boneca não queria ir dormir. Seguia atentamente o filme que estava a dar e queria vê-lo até ao fim o que nos deixou a todos perplexos porque não estamos a falar de um filme infantil.

Questionada sobre o assunto dizia, na sua vozinha de quatro anos, que era um filme de princesas, não era? E que ela gostava de filmes de princesas. Eu sou aquela princesa castanhinha, a fininha. Neste filme há muitas mas eu sou a castanhinha!



O filme era "E tudo o vento levou" e a princesa escolhida da Boneca era a doce Melanie...

Quem também foi levado pelo vento foi o Gaio que decidiu bater a asa sem avisar. Sempre é uma mudança por aqui: todos os animais de estimação só se libertavam de mim pela morte, este conseguiu fugir.

Resta-me então o eterno fantasma do Jonas e acho que vou ter que aceitar isso.

Ano Novo, Fantasma Velho!

sábado, dezembro 31

A Dívida Pública



A Ana pediu ao Júnior para se despachar e ir-se deitar porque ainda precisava de estudar mais umas matérias para o exame de Finanças Públicas.

O petiz interessou-se e quis saber se faltava muito. A mãe disse-lhe que só faltava dar uma olhadela à questão da dívida pública.

O miúdo fica ainda mais interessado e diz com fervor que a dívida pública mudou a vida dele! Que desde que ficou a saber da dívida pública percebeu que toda a sua vida tinha sido uma mentira. E repetia que era mesmo toda a sua vida, os seus já muito longos oito anos de mentira.

Ficámos todos perplexos, até eu, que estou mais ou menos demissionário destas funções cronicais. Que sim, que toda a sua vida tinha pensado que o dinheiro que tiravam ao pai e à mãe constantemente era para dar aos pobres e que só agora tinha percebido que não era para dar aos pobres nada, era pagar pagar a dívida de coisas que compraram e que ele nunca viu nem sabem aonde estão. E que continuavam a haver cada vez mais pobres, que ele tinha visto isso na televisão e aqui quase que gritava de tão exaltado.

Isto mudou a minha vida dizia desolado enquanto se ia deitar. Mudou mesmo.

E o grande problema da dívida pública, digo eu, não é dever: é não ter com que pagar!

domingo, dezembro 25

Spooky!





Então é assim o ponto de situação: a mãe tem pesadelos em que vê gente a ser morta pelos olhos dos que as matam, o filho tem pesadelos porque tem medo dos mortos e a filha vai no dia de Natal enterrar a Barbie para a praia.



E a mãe ainda diz "que estranho a Barbie assim enterrada parece a cena do último crime que me fez gritar". É tão curiosa a maneira como a Boneca empurra a cabeça da Barbie na areia...



Eu não sei o que o Pernas está a pensar fazer, mas eu papagaio Gaio Africano vou bater a asa!

sexta-feira, dezembro 23

Sweet dreams are made of this



Ultimamente ando a cair de sono no poleiro durante o dia tal é o desvario das noites. A Ana voltou à fase dos pesadelos e já ninguém aguenta mais acordar ao som dos gritos dela pela noite fora só para a ouvir contar histórias sangrentas que se passam naquele cérebro esquizofrénico. Grita tanto a dormir que um destes dias acordou rouca.

Parece que estamos todos a viver uma versão rasca do Shining.

Como se a ela não lhe bastasse ter tido a infância do miúdo do Sixth Sense agora em idade adulta vive como a tipa do Medium.

Há quem duvide que eu seja um animal real, pensam que eu sou um papagaio virtual mas posso garantir-vos que sou é um animal a viver na Twilight Zone.

DAMN!DAMN! DAMN!

domingo, dezembro 11

As maravilhas do ensino público

A Boneca desata a contar e já vai em 65 sem se enganar quando eu farto daquela lengalenga papagueio qualquer para ver se a interrompo.

É inútil! Ela continua até 100...

- Boa, diz a mãe, já consegues contar até 100!
- Não consigo nada!, responde a Boneca toda autoritária, só sei contar até 20! É o que a professora diz...

Amuleto





A Ana anda completamente farta dos exames e eles ainda mal começaram. Gostava de ter uma varinha mágica e acordar no dia 29 de Junho de 2012 na Praça de Londres...

Mas não sendo isso possível bastaria que o exame de amanhã não lhe desse demasiadas dores de cabeça...

E como era de artes mágicas e de uma viagem ao fantástico que precisava resolveu pedir ajuda ao Grande Mago Júnior...

- Júnior, tu não tens assim nada que me possas dar para me dar sorte no exame?

- Não tenho dinheiro, respondeu o Júnior, sabe-se lá porquê!

- Não estou a falar disso, estou a falar de um amuleto. Um objecto que tenhas e que te dê sorte a ti nos testes!

- Isso não tenho, diz o petiz com verdadeiro pesar. O que me dá sorte a mim é a minha inteligência, afirma já mais alegre, mas nem sempre, resmunga, como naquilo do TPC de português...

sexta-feira, novembro 25

sexta-feira, novembro 11

As maravilhas do ensino público



Desde que vivo aqui no poleiro que oiço a Ana enaltecer o ensino público. Passava até o tempo todo a enlouquecer as meninges do Pernas clamando que o colégio dos miúdos não passava de um Gueto sócio-económico e cultural sem a multiplicidade étnica essencial para os filhos dela.

Pelo que julgo saber foram anos nisto, até que o tal Gueto fechou o ano passado depois de ter sido penhorado pelas finanças.

Foi a oportunidade que a Ana há muito esperava e lá conseguiu que o Pernas fosse na história da escola pública. Não foi difícil. O Pernas já andava a contar os euritos que todos os meses não recebia porque o governo tinha decidido que não lhe faziam falta e concordou.

E a Ana lá foi à primeira reunião do Infantário da Boneca ansiosa por fazer parte daquela comunidade onde estariam representados todos os extractos sociais como se de uma amostra estatística do país se tratasse.

Veio satisfeita! Aquilo é que era uma escola como devia ser. A turma da Boneca tinha dois brasileiros, um ucraniano, um romeno, duas famílias carenciadas e, maravilha das maravilhas, a cereja em cima do bolo, a turma da Boneca tinha o seu próprio cigano!

Era o êxtase. Como se não bastasse a miúda no primeiro dia de aulas escolheu o cabide ao lado do ciganito apesar do Pernas ter tentado até ao ridículo que a miúda escolhesse outro mais distante.

Durou pouco o idílio da Ana com o ensino público.

A Boneca tem quatro anos e na escola pública os miúdos de quatro anos ainda não escrevem o seu próprio nome. Fazem desenhos e mais desenhos e mais desenhos e a Boneca estranha porque estava habituada a trabalhar.

No Gueto os miúdos eram estimulados independentemente da idade a desenvolver as suas capacidades...

Na semana passada a Boneca disse que tinha aprendido na escola a escrever os cinco primeiros números. A mãe estranhou, mas tu já sabias isso. Disseste à professora que já sabias? Que não tinha dito, e aqui parecia meio envergonhada, porque a professora não lhe estava a ensinar a ela, estava a ensinar os mais crescidos...ela estava apenas a fazer mais um desenho...

E quando chega a casa pede para trabalhar e lá vai escrevendo os nomes de todos cá da gaiola, e os números e as letras e o nome da terra em que vive que a professora escreve no quadro apenas para os mais velhos aprenderem mas que ela ainda não pode saber...

Se calhar há Guetos que valem a pena.