sexta-feira, novembro 10

Os amigos, esses inúteis

A Ana não tem amigos. Todos sabemos isto e já por aqui tem sido falado, por mim, e pelos meus antecessores escribas. Quanto muito poderíamos dizer que a ter amigos serão como aqueles bons amigos a que se refere o Miguel Esteves Cardoso, que nunca são para as ocasiões e o que ele curiosamente vê como uma vantagem. Fala ele dos amigos que são para sempre e para quem a "ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo." 

 A meu ver, este tipo de amigos, é perfeitamente inútil. Estes não servem para nada. Mas deve ser o meu sangue tropical a falar...


Este conceito, no caso da Ana, é levado ao extremo e assim seja qual for a ocasião que se apresente está, obviamente, livre da presença de amigos. Assim vejamos o que faz a Ana quando precisa de ajuda: ou é ajudada por um completo desconhecido que naquela momento lhe dá uma mãozinha solidária ou contrata alguém ou mais frequente ainda cerra os dentes e ajuda-se a ela própria. 

Passam-se meses sem que o telefone toque e seja um amigo. Normalmente é alguém a tentar vender qualquer coisa ou então é engano. Mas ontem o telefone tocou e era um amigo! 

- Ê pá! LIguei-te por engano, ouve do outro lado. Mas olha se quiseres falar podemos falar, continua o vozeirão do outro lado, é daqueles amigos que falam a gritar, como se estivessem numa parada. 
Claro que quer falar, vai lá perder esta oportunidade... 
- Ê pá! Mas se quiseres falar tens que me voltar a ligar pá.Tenho um tarifário de merda agora. 

É claro que ela devolve a chamada, para falar. Falar com um amigo da Ana normalmente significa que o amigo fala sem parar do que fez, do que faz, do que está a fazer, do que lhe fizeram, do que irá fazer, até esgotar o assunto. E foi o que aconteceu. Eles falam e ela limita-se a umas interjeições que incentivam ao "diálogo". Ontem foram 35 minutos de "conversa". 

Depois de desligar ficou ali a rir-se da situação. Das relações que (não) consegue estabelecer e da vida. Os meus " amigos" não são assim tão inúteis se me fazem rir. Certo Jonas? 
E é isto.

terça-feira, janeiro 17

Reunião na escola da Boneca

O Pernas não podia ir e a Ana lá teve que retomar a ida às reuniões de avaliação, de final de período, da Boneca.
Agora que o Rufino já não é colega da turma, ficou retido, a Ana perdeu a motivação. Desde o infantário que a mãe do miúdo cigano se sentava ao pé dela. Tudo o que fosse importante ela tinha que escrever para dar àquela mãe, que dizia não saber escrever.
Agora, sem esta missão ficou perdida e não se consegue concentrar.
Por exemplo, estes são os apontamentos da reunião do primeiro período:


Nota-se o esforço no início da reunião...Qualquer coisa sobre o Carnaval que já não apanhei...ahahahahahahaha

Segue-se qualquer coisa sobre crescer saudável. Os pais fazem os fatos. Aqui houve um momento de pânico e de repente ela ficou atenta. Da última vez que isto aconteceu, em que os pais tiveram que fazer os fatos,  a Boneca ainda andava no infantário e o fatos ficaram tão ridículos que o Júnior em pleno desfile, vestido de laranja, desatou à pancada com outro miúdo vestido de banana, que o tinha provocado. O fato do outro miúdo tinha sido, obviamente comprado on-line por um balúrdio, enquanto que o do Júnior consistia em duas cartolinas que lembravam vagamente uma laranja, presas nos ombros.

Vocês não sabem, mas eu sei, falta o último item sobre a festa de final de ano, sim já há data! Ela nem apontou propositadamente porque já está a pensar numa maneira de se escapar a um dia inteiro num parque com um monte de pais, cheios de vontade de mostrar que fazem todas as actividades propostas com muito prazer com o seus filhos. Ela quer lá saber de andar em estafetas parvas! Pronto! Lá esta...não é boa mãe...





segunda-feira, setembro 26

O novo amigo da Ana

A Ana tem montes de segredos que conta apenas ao seu Amigo Imaginário. É claro que eu que sou o Amigo do Além, de vez em quando apanho essa conversas.
Que tipo de segredos?
Bom, não é segredo que sempre teve Amigos Imaginários. Corrijo, não é segredo que todos os amigos dela são imaginários. Os outros, e algumas outras, podem tirar o cavalinho da chuva: são apenas conhecidos.
Também não é segredo que a Ana sempre teve Amigos do Além. Desde pequena que é tu cá tu lá com essas entidades de luz, que só ela vê e que a visitam de noite e dia.
Agora, o que é segredo é que a Ana tem um novo amigo, desta vez um Amigo Automóvel, de marca Ford Focus, de cor preta (de que outra cor poderia ser? ),que a segue como um cão fiel. Esse Amigo Automóvel adora-a, e não consegue passar muito tempo longe dela.
Adora-a tanto que da última vez que foram buscar a Boneca à escola e apesar de a Ana ter dito, agora esperas aqui um bocadinho, ele não foi capaz e já depois de estacionado e de portas fechadas, foi atrás da nossa heroína de amigos estranhos e só parou quando o portão do parque de estacionamento se atravessou no seu caminho.
Sério. Aconteceu. Temo que esta amizade acabe por destruir o caninamente fiel Amigo Automóvel. A sério. Mesmo. Esse Amigo Automóvel não lhe deve faltar muito para se tornar num Amigo do Além...

sexta-feira, setembro 2

Aquela coisa que vocês fazem com os olhos...


A voz da Boneca soa de repente na cozinha, interrompendo mais uma qualquer conversa entre o Júnior e a mãe.
- Como é que vocês fazem essa coisa com os olhos?
- Qual coisa?, perguntam os dois em coro, revirando os olhos porque foram interrompidos.
- Isso! Isso que vocês fizeram agora!

Já se sabe que qualquer interacção entre o Júnior e a Ana implica muitos revirares de olhos. Aliás, qualquer interacção entre estes dois e o resto do mundo implica imensos revirares de olhos e esgares. Sim, porque eles já não controlam as suas caretas de insatisfação ou desagrado, já lhes sai de forma completamente involuntária.
A Boneca anda há que tempos a tentar imitar este revirar de olhos, até que resolveu perguntar como se faz. Queria aprender. Pensava que seria como aprender a assobiar ou a piscar o olho.

Boneca, tu nunca vais conseguir... Ou se nasce assim ou não se nasce assim. É preciso ter a exasperação no sangue, a impaciência e ser um bocadinho soberba. Exige muito cinismo, bastante sarcasmo e doses descontroladas de ironia. Por exemplo, tu mesmo quando desaprovas alguma coisa, ou por mais estúpida que seja a pessoa, ou estranha, por mais incrédula que fiques com os disparates de alguém, não queres ofender, tentas sempre compreender. E se não gostas de alguma coisa dizes directamente. Nós não.
Foi mais ou menos isto que a Ana lhe respondeu.

- A sério?! Vocês são assim? Não sabia..., disse a Boneca genuinamente perplexa, mas sem mesmo assim conseguir revirar os olhos,

É um caso perdido esta miúda. E ainda bem...Porque este dois ainda me fazem explodir, tipo Peixe-balão!



quinta-feira, junho 2

Public transportation forever...

A Ana é uma invejosa!

É! Mesmo que diga que não, que é feita de matéria nobre, são tudo tretas. É uma invejosa como todas as mulheres. Por isso se aborrece quando alguém atende o telefone no autocarro e fica a conversar, perto dela. Diz que não gosta porque não consegue ler descansada, que é uma falta de civilidade e que incomoda os outros passageiros. Tudo mentira. É inveja, inveja de quem tem alguém que lhe telefona às oito da manhã ou ao fim do dia, só para conversar porque ela, meus irmãos, continua apenas a receber aquelas SMS do Continente que continua a pensar si e em toda a gente, promíscuos dum raio.

Hoje de manhã, a que estava mais perto dela recebeu um telefonema e deu para ver que seria para durar. Uma tipa entradota de riso fácil e aquele ar de balzaquiana que as trintona já não têm ou seja, a gaja estava perto dos 50 e tinha alguém lhe lhe ligava de manhã com insinuações sobre a noite passada. Chiça isso faz doer...Vinte minutos naquilo, uma eternidade, chiça!

Até que o gajo liga a câmara e a Ana o vê. E lá está o gajo da gaja do lado a olhar para ela e dizer sei lá o quê porque, ela só ouvia e bem as deixas da outra. E lá está o tipo da outra, em tronco nu, com umas calças largas tipo pijama a rir e a falar. Aquilo estava a incomodar, já bastava uma conversa de 20 minutos sobre a vida deles e agora começam a discutir de que material são feitas as calças dele... E a Ana está tipo a pensar esta gente não tem mesmo mais nada para falar?! Porque dá para perceber que é disso que falam...Até que o cromo lá do outro lado do mundo, à frente dela, da Ana, que não tem nada a ver com aquilo, baixa a frente das calças e ri, ri, ri e a outra ao lado dela ri, ri, ri e diz não faças isso com aquela voz de lagartixa me atira na parede e faz de mim o que quiseres e Ana ali de boca aberta a olhar...

Depois quando me conta, com ar revoltado, dizendo que ninguém respeita ninguém,  nem no autocarro e nem gente com idade para ter juízo, eu só consigo pensar inveja, tu tens é inveja da lagartixa...

quinta-feira, março 31

Period trekker ou as gajas são mesmo cruéis...

A Ana tem montes de aplicações no Iphone e a Boneca gosta de as explorar. Uma delas chamou-lhe a atenção porque tinha uma flor branca em fundo rosa. 

- Que aplicação tão liiinda!!!!! O que é?

A mãe lá lhe explicou que aquela aplicação servia para lhe dar uma ideia de quando iria ter o período.

A míuda ficou em choque. 
- O quê? Tu ainda não tiveste o período?
- Claro que já tive. Quanto se tem a primeira a vez passa-se a ter todos os meses. Tu também quando tiveres, vais ter todos os meses.
- Todos os meses?! Pensei que era só uma vez!!!!Todos os meses?! A vida toda?! Que horror....
 - Calma. Não é assim tão mau. Não tens a vida toda. Deixas de ter aos 50 e tal anos...
- Ei! Que sorte! Estás quase a deixar de ter! Já falta pouco para te livrares disso!

E sai aos saltinhos da sala.


segunda-feira, fevereiro 15

Júnior e uma tentativa de estudo acompanhado




- Mãe, a professora de Ciências diz que aquelas cenas do mar ter aberto, que não foi Moisés, diz que terá sido um fenómeno geológico natural.

- A tua professora só pode estar a gozar! Eu sei de fonte segura de quem lá esteve, que foi o poder divino.

- De quem é que estás a falar?!

- De Josué! Claro! O nosso antepassado Moisés não sobreviveu para contar a história mas o seu braço direito, Josué, estava lá e esteve com ele até ao fim. Mais, foi ele que conduziu o povo eleito. Sei por testemunho oral, porque está nas Tora. Diz à tua professora para parar de denegrir os feitos e a imagem da nossa família! 


- A sério mãe?! Podes parar com isso e falar a sério?



- Eu estou a falar a sério. Essa falta de fé nos teus está-te no sangue, e só pode vir daquele despassarado do Cristóvão Colombo que gostava de se evidenciar. Onde é que já se viu ter-se ido oferecer ao rei de Castela?!



- Desisto...

segunda-feira, fevereiro 1

As gajas são cruéis


A Ana está em casa há alguns dias com uma constipação forte. Sente-se mal e está mesmo muito em baixo.

Hoje o Júnior, assim que chegou a casa, foi ter com a mãe com o ar mais preocupado e ternurento do mundo, só para perguntar se a mãe estava melhor.

A Boneca, que chegou pouco depois, olhou para a mãe e exclamou na sua vozinha pedante "Credo! O que é que se passa? Estás toda despenteada!"

É mais do mesmo, aqui, aqui e aqui, mas de facto as gajas já nascem e são mesmo cruéis. 

segunda-feira, janeiro 4

Um endereço de correio electrónico especial...

Sempre que o Júnior se predispõe para ajudar a Boneca, a Ana desconfia.
Há sempre marosca associada.
Desta vez foi a propósito do Ipod da Boneca, e da necessidade de criar um email.
O Júnior levantou-se do PC e quase saltou para o sofá a gritar que fazia, que criava o email.
E fez...E criou...Tudo sozinho!

O endereço electrónico da miúda agora é: 
boneca.moises.coco@gmail.com

Imagino qual será a palavra passe...





quarta-feira, dezembro 2

Boneca, a Herética

Hoje Costa apresentou o novo governo ao país.

Aqui no aquário todos detestam o Costa.
 
Só que a Boneca de repente decide dizer que gosta daquele senhor, e aponta para o Costa, gosto dele: pelo menos é alegre!
E é assim! 
Em Portugal temos todos 8 anos e gostamos de pessoas alegres.
Portugal é o passeio dos alegres

domingo, novembro 1

Dia dos mortos, não todos santos


Hoje a Ana acordou antes das cinco da manhã e gritou. Gritou tanto que ficou rouca, ali sentada de olhos abertos, na cama.
A Boneca, que dormia com ela acordou e perguntou porque tinha a mãe gritado.
A mãe respondeu-lhe que tinha tido um pesadelo, tinha visto uma criança ali parada ao lado da cama e que lhe tinha parecido estranho.
A Boneca perguntou se a criança ainda lá estava, a mãe disse que não e a miúda voltou a dormir.
 
(Já que a Ana já estava acordada aproveitou para mandar umas mensagens para o seu amigo imaginário.
Fazia todo o sentido...afinal já que estava a ver coisas... Claro que ele não respondeu, não fosse ele um amigo imaginário à séria.)
 
À noite, a Boneca começou a chorar à hora de deitar porque estava com receio que o menino de ontem estivesse no quarto.
A mãe perguntou que menino.
Aquele que tu também viste e que estava ontem aqui no quarto de joelhos e com um capuz na cabeça. Eu até tapei a cabeça com o lençol e virei-me para a janela só para não o ver. Foi antes de tu gritares, mamã.
 
Olho para a Ana e vejo como fica vermelha com o choque e faz um esforço para não começar a chorar, como a Boneca, que tem lágrimas grossas que lhe descem, pelas bochechas, até à T-shirt branca.
 
Diz, eu vi foi uma menina, mais ou menos da tua idade, mas que parecia mais pequenina. Agora já sei porquê: estava de joelhos....
Eram dois? Pergunta a miúda, de olhos arregalados. Mas e o que estavam a fazer aqui?! 
Não faço ideia responde a Ana. Podemos perguntar se voltarem.
Achas que vão responder, diz a miúda ainda em lágrimas.
Não sei fofinha. Quando era da tua idade havia um menino que ficava sempre no canto do meu quarto, perto do roupeiro. Nunca consegui que me dissesse porque estava ali...até que deixou de aparecer...

Percebem agora porque o Papagaio Gaio bateu a asa?... Esta Malta tem o seu próprio on-going Halloween...

quinta-feira, outubro 15

A pobre idade a chegar

O Júnior está a mudar de voz, está assim a ficar com a voz rouca e mais funda, mas só de vez em quando.
 
A Ana anda triste com isto porque assim é menos uma pessoa com quem a podem confundir ao telefone. Neste momento, por exemplo, para a avó acreditar que é ela ao telefone e não o Júnior, é submetida a uma série de perguntas de segurança , coisas que o Júnior nunca poderia saber, como por exemplo quem foi o décimo terceiro namorado da tia Lhena...
 
O Júnior também está apreensivo. Ele gosta de se fazer passar pela irmã, pela mãe e até pela avó...
 
Para o consolar, a Ana lembra-lhe que a partir de agora poderá sempre passar a fingir, ao telefone, que é o pai.
 
- Nã, é mais complicado, diz o miúdo, meio desanimado.
 
- Não fiques assim. Vais ver que consegues, quando estabilizares a voz.
 
- Tens razão! Já sei! Posso mesmo imitar o pai telefone! Só tenho que atender e fazer sempre uma voz ligeiramente aborrecida...
 
ahahahahahahahahahahah
 
Desculpem. Mas ainda não consegui parar de rir.

 

terça-feira, outubro 13

O meu amigo imaginário é melhor do que o teu...

A Morena liga, mais uma vez, do Continente e pergunta com voz desdenhosa pelo amigo imaginário da Ana.
- Como vai o teu amigo imaginário?
- O Miguel? Está tudo bem com ele.
- Já fez a desintoxicação?
- Já...
- Ana, esses tipos estão sempre a ter recaídas e depois és tu que tens que aguentar o barulho...
- Lá estás tu... É só um amigo imaginário com quem gosto de conversar. Não tem nada de mal.
- Não tem nada de mal, não tem nada de mal...Tu tens é que arranjar alguém que te valorize. Não te percebo. Oh Ana, mas porque é que o teu amigo imaginário é um cocainómano recorrente? Não poderias ter escolhido melhor?...
- Hum...poder, poderia mas não seria a mesma coisa. Sou como o teu amigo imaginário, gosto de gerir impossibilidades...




terça-feira, outubro 6

O Metralha regressa à escola

 
O Júnior terminou o ano escolar em grande: os pais de um colega de turma apresentaram queixa contra ele, à polícia.
Aparentemente, o Júnior e um colega divertiam-se enviando SMS ameaçadoras a um colega novo na turma. Pérolas literárias como vais morrer, sei onde moras, diz as tuas orações que não passas de amanhã e por aí fora.
Se estivéssemos nos anos 80, tudo isto teria sido dito na cara do outro puto e no máximo dos máximos, o Júnior  apanharia umas lambadas do pai do outro miúdo mas, como estamos no século XXI é a polícia que resolve os casos de perseguição escolar... É que aos outro pais nem lhes ocorreu primeiro abordar a escola...nada disso! Isto é caso de polícia...
O Pernas quando soube viveu momentos complicados. Ele, o representante dos pais nas reuniões escolares, conhecido por não perdoar aos alunos infratores nem aos seus dissolutos pais, era agora o pai do "so called" aluno mais perverso da turma.
Não dormia, passava a vida a perguntar-se onde teria falhado. O seu filho afinal era um pulha, não era aquele bom miúdo que ele pensava. Já falava em castigos perpétuos e colégios internos.
A Ana também fico perplexa. Não conseguia perceber como é que Júnior se tinha deixado apanhar e mentalmente corrigia a ortografia das tais mensagens! Estava demasiado desapontada e só pensava que nem um delinquente bem sucedido conseguia criar. Estava de rastos, ela que durante os seus tempos de escola atormentou sem piedade, nem distinção de género, só para aliviar o stress, sem nunca ter sido apanhada.
De qualquer forma, o bom senso lá acabou por imperar entre os adultos. No fim tudo se resolveu com um pedido de desculpas do Júnior, que já se via numa dessas casas de correção só porque tinha queda para escrever literatura neo-noir.
O Júnior, ao pai, prometeu que teria mais juízo de aqui para frente. À mãe prometeu que, caso quisesse enveredar pela vida do crime, iria passar a planear as suas ações maléficas com mais premeditação.
E assim terminou o sexto ano e começou sétimo.
Estamos o quê? Na terceira semana de aulas e já trouxe um recado na caderneta e uma perturbação da sala de aula, em conjunto com outro miúdo.
A Ana ainda pensou que era o mesmo compincha do ano passado, mas não, é outro miúdo, que ele nem conhece.
- Se não conheces, nem é teu amigo, porque estás sentado ao lado dele?
- A professora não nos deixa sentar onde nós queremos, acredita que na ordem alfabética, diz que é melhor para evitar distúrbios...Pelo visto está enganada, diz levantando ligeiramente sobrancelha, com um ar imperturbavelmente cínico....

Ahahahahahahahaha
Este miúdo faz-se pensa a mãe...tem é que deixar de ser apanhado...

terça-feira, setembro 22

Não dormirás após seres mãe!

E pronto, é oficial: a Boneca é uma sonâmbula de primeira categoria, o que é pra lá de lixado para a Ana.
Como os únicos três leitores deste blogue sabem (a tia desocupada, a prima cusca e o ex desesperado), a Ana gosta de dormir.
Sabem também como o Júnior lhe fez a vida negra durante anos, ao dormir apenas de vez em quando, e conhecem a alegria que sentiu porque a Boneca era uma bebé que sabia dormir.
Ora isso acabou. De facto, o Júnior dorme mas a Boneca, que resolveu dormir bem até aos três anos, mudou de ideias a passou a desenvolver, como muita dedicação, a sua querida perturbaçãozinha do sono.
Inicialmente, até tinha a sua graça, um episódio de sonambulismo de vez em quanto, a miúda a sentar-se na cama e a falar de uma forma tão coerente, que das primeiras vezes a Ana pensou que a Boneca estava acordada.
Depois começaram as gargalhadas a meio da noite. Acreditem, uma criança a rir às gargalhadas a meio da noite, com uma expressão vazia no rosto, é assustador, tipo filme de terror do género Bonecas Assassinas.
Depois começou a andar pela casa, a rir por exemplo sentada a meio da noite na sanita.
E agora faz aquilo que se convencionou chamar actividades complexas, ou seja, faz a vidinha dela como se tivesse acordada, vai ao wc, muda de roupa, muda de penteado, etc.
Ontem por exemplo a Ana deitou uma Boneca de camisa de dormir e a cabelo solto para acordar com uma Boneca nua e de totó.
Como isto acontece pelo menos uma vez por semana a noites da Ana estão cada vez mais complicadas até porque, agora tem que gerir o pavor do Pernas: e se a miúda sai porta fora a meio da noite e a mãe não dá por nada?!
Eu proponho que se amarre uma guita à perna da mãe e outra perna da filha...eheheheheheheheheh
 

quinta-feira, agosto 13

Amigo Imaginário



Desde que se conhecem que a Ana sabe que a outra sobrevive com a ajuda de um amigo imaginário.
Segue o conselho da Morena,  e resolve arranjar um para si própria.
Quem sabe se é disso que precisa? De um amigo imaginário...
 
A Morena foi muito precisa nas suas indicações, escolhe alguém com quem possas falar, que te faça rir, que te mantenha interessada pela vida, desperta.
Até explicou como era o dela. Um homem de estatura mediana, equilibrado. Um tipo na casa dos 50, com gosto pela poesia e pelas viagens, sem filhos pequenos. E com poder. Pelo menos com algum poder. Quiça até chefe de um pequeno estado...

A Ana pensou inicialmente num amigo imaginário extraterrestre. Seria apenas recuperar um antigo amigo imaginário de infância, não estaria a arriscar muito. Depois, resolveu apelar à mulher cosmopolita que sufocou durante demasiado tempo, decidiu-se por um terráqueo.
Um tipo da idade dela, isto é, com mais de 40 anos mas com a mania de que não tem mais do que 30, dupla nacionalidade, duas tatuagens, um piercing no umbigo, meio dred , descontraído , educado, filho de diplomatas, várias ex-mulheres e um filho apenas.
Deliberou que quando lhe telefona ele atende a cantar. Toca vários instrumentos e dança lindamente, fala pelos cotovelos e em pelo menos três idiomas.
Tem um senão, tem dias em que está meio cacimbado...mas também tem dias em que não está.

Enfim... ...et la boucle est bouclée...um extraterrestre mesmo.

Ela não disse, mas eu Jonas Peixes, acredito que quando esse wi fala é com prenúncia angolana...a Ana está convencida que com os angolanos ri mais e melhor...o pior é quando der para chorar...eheheheheh é tudo em grande em Angola.
 
 
 

terça-feira, julho 28

Diferentes perspectivas

O Júnior descobriu que consegue controlar a TV através do iPhone ao mesmo tempo que a Boneca descobriu que a casa está assombrada: há um fantasma que muda de canal, aumenta e baixa o som sempre que ela está a ver TV...

quarta-feira, julho 1

Do medo à vergonha



O Júnior gosta de brincadeiras truculentas e barulhentas e consegue arrastar a Boneca na maior parte das vezes para estas actividades.
Brincadeiras vigorosas em que um miúdo de 11  anos carrega de variadas formas uma miúda de 7 anos.
Ás cavalitas escada abaixo, içando-a e deixando que caia no chão ou no sofá ou então enrolando-a à cintura ao melhor estilo acrobático, rodando,rodando rodando com a irmã atada à cintura
A Ana tem dias em que anda mais sensível ao barulho e mais temerosa de lesões físicas e acabou por lhes pedir aos berros para parar. 
Dois motivos a moviam. Primeiro, tinha medo que se magoassem. Segundo, precisava mesmo de gritar.
- Também tens medo de tudo, reclamaram as doces criancinhas.
- Ou param, ou faço pino!, foi a a ameaça...
Ou param ou faço o pino!? A sério? Isso é lá forma de disciplinar crianças...
Mas funciona...
Ao Júnior faz-lhe muita impressão que a mãe de repente faça o pino, mesmo que seja contra a parede que é mais fácil. Tem medo que a mãe se magoe...
Tem medo...
Dou-lhe dois anos para que comece a ter vergonha...

terça-feira, maio 5

Starving Proposal à angolana




A Morena e a Ana persistem na sua estranha amizade.
Mas não é fácil.
Desta vez a Morena decidiu que precisa de perder pelo menos 5Kg, e quer que a Ana perca também 5 Kg.
Reconhece que a Ana não precisa tanto de perder peso como ela, mas isso é secundário, quer companhia.
É bonito ver uma amizade assim, tão cheia de reciprocidade...
É lindo perceber que mesmo que a Ana arranje amigas em vez de amigos, as exigências dessas amizades continuam, por assim dizer, peculiares.

E já escolheu o local para passar a Páscoa com esse projecto em mente.
Tem o projecto de passarem 15 dias a passar fome,  rodeadas de luxo, clisteres e transfusões de sangue oxigenado num estranho SPA, com uma diária por pessoa semelhante ao salário mínimo português.
A Ana ainda disse que ia. À boa maneira portuguesa pensou eu vou, e logo se arranja outra para fazer dieta por mim...Mas depois percebeu que era mesmo para passar fome e inventou uma desculpa qualquer e não foi.


Quando a Morena voltou vinha mais magra e um bocadinho distante, passar fome sozinha não tem graça...

- Não foste porque não querias ir, disparou a Morena.
- Se ainda fosse para comer uma moambada regada de Moet &Chandon, disse-lhe a Ana...agora para passar fome...
- Ana, disse a outra estalando os lábios  com desprezo,desculpa que te diga isto, mas estás cada vez mais angolana...



quinta-feira, abril 23

Ser angolana não é para todas




A Ana anda de rastos!

Quinze dias depois da Morena ter regressado a Angola ainda sente dores no corpo dos dois dias que passou com ela.
Apesar da Ana ter dentro dela uma pequena angolana a crescer, o corpo ainda não está preparado para o que lhe é exigido em dois dias com a Morena.

E o problema nem foram as várias e demoradas refeições em restaurantes da moda, onde ela fica com grandes dores de bunda. Há que perceber que o matako dela não é tão almofadado como o da Morena!!!
Também não foram os múltiplos eventos, exposições ou concertos que a fatigaram.
Sobreviveu bem à partilha de intimidades, apesar de ter tido que inventar algumas da parte dela...
O que acabou com a Ana foram mesmo as compras! Aqueles bracinhos branquelas não conseguem carregar tantos sacos de compras durante tantas horas.
O problema nem foi na Av. da Liberdade porque aí o Hugo ia atrás delas recolhendo os sacos das compras no porta bagagens.
Mas e no El Corte Inglés? Aí não havia Hugo...

Horas e horas de ginásio e não aguentou dois dias de compras...
Lá para o fim, até conseguiu deslocar um ombro com a mala Hermés da amiga, a pesar uns 10Kg.
Foi ela sobreviver a todas as provas de angolanidade e veio a morrer perto da meta na prova de fôlego que é  o El Corte Inglés...

Ser angolana não é para todas...